Apesar da queda iminente de Bolsonaro, a crise moral do Brasil e o fortalecimento da extrema-direita mostram que o país ainda enfrenta sérios desafios à democracia.
A recente tentativa de impeachment de Jair Bolsonaro, que falhou em obter apoio no Congresso, reflete a crise moral e de caráter no Brasil. Apesar de um possível fim de mandato para Bolsonaro, a extrema-direita não está derrotada e ainda apresenta riscos para a democracia brasileira.
Após a tentativa frustrada de impeachment, muitos podem pensar que o movimento pela queda de Jair Bolsonaro chegou ao fim. No entanto, essa ideia está longe de ser verdadeira. O impeachment, como foi observado em momentos anteriores, não prospera no Congresso, onde o problema central é o caráter dos políticos, não a falta de leis ou argumentos válidos. Quando Dilma Rousseff foi alvo de impeachment, o Congresso, de forma orquestrada, formou alianças entre públicos e privados, com banqueiros e partidos adversários, permitindo até atos criminosos dentro das instituições. Contra uma simples “pedalada fiscal”, o Congresso quase foi à loucura.
Hoje, o Brasil enfrenta uma série de crises, como a pandemia que já causou centenas de milhares de mortes, uma alta generalizada nos preços dos produtos básicos, inflação e a pior crise hídrica em décadas. Em meio a isso, o Congresso apenas emite notas de repúdio, sem se mover de fato contra as atitudes autoritárias de Bolsonaro. E, quando se trata de defender os direitos democráticos, o Congresso parece querer “acalmar os ânimos” diante de um governo que constantemente ameaça a democracia e se posiciona contra as instituições. A falta de ação concreta demonstra que, na verdade, o problema não está nas leis, mas na moral de grande parte dos políticos.
Arthur Lira, que ocupa a presidência da Câmara dos Deputados, é um dos principais escudos do governo Bolsonaro e da extrema-direita. Lira se mostra inabalável, mesmo diante da pressão por impeachment, e mantém o seu papel de proteção ao governo, um governo que já há dois anos mantém uma postura autoritária. Este é o reflexo de uma crise moral no Brasil, que vai muito além da política e se reflete na sociedade. Aqueles que apoiam um golpe de Estado e os que engavetam mais de 130 pedidos de impeachment são parte de uma sociedade que não tem se importado com a preservação da democracia.
Contudo, o que mais preocupa não é só a preservação do governo Bolsonaro, mas o que vem após ele. Mesmo que Jair Bolsonaro caia ou termine seu mandato sem causar uma ruptura institucional, a extrema-direita não se dissolve. Ela permanece viva, mais forte, alimentada pelo discurso de ódio e pelo apoio de figuras polêmicas e irresponsáveis. Com a movimentação de personagens como Zé Trovão e Sara Winter, que podem causar sérios danos à economia e à política do país, a ameaça à democracia continua presente.
A figura de Jair Bolsonaro, embora tenha causado inúmeros danos à política e à democracia, também virou objeto de risos e zombarias. Sua rejeição de 67% demonstra a insustentabilidade de seu governo e sua incapacidade de manter apoio popular. No entanto, a crise moral que o país enfrenta vai além da figura de Bolsonaro, e é alimentada por um sistema político e social que ainda sustenta valores autoritários e conservadores.
Nos últimos anos, muitos imaginavam que a queda de Bolsonaro era uma questão de tempo, mas o cenário atual mostra que a luta pela democracia no Brasil está longe de ser vencida. A ameaça da extrema-direita permanece, com figuras que continuam a propagar discursos antidemocráticos e com a população ainda dividida. A crise é profunda e reflete um problema de caráter, não apenas de gestão política.
Com o surgimento de novos líderes da extrema-direita e a possível ascensão de sucessores ainda mais perigosos, a preocupação com o futuro da democracia no Brasil nunca foi tão grande. A ascensão de um novo “Jair” no país é um temor real, pois a crise moral continua a alimentar uma sociedade disposta a sacrificar a democracia em nome de interesses pessoais e políticos.
O Brasil, portanto, precisa mais do que nunca refletir sobre os rumos da sua política e o tipo de país que deseja construir. As ameaças à democracia não desaparecerão com a queda de um governo, e sim quando o país se comprometer com valores democráticos e com a reconstrução de um sistema político mais ético e responsável.