Parte da esquerda, ao rejeitar o papel das instituições democráticas, arrisca trocar a possibilidade de avanços estruturais por experimentações políticas marcadas por amadorismo e voluntarismo.
Em algumas correntes da esquerda, especialmente aquelas influenciadas pelas críticas marxistas ao aburguesamento da Revolução Francesa, é comum encontrar um ceticismo em relação à legitimidade das instituições democráticas. Essa perspectiva alimenta propostas como “novas eleições” ou “devolver o poder de escolha ao povo”, vislumbradas como formas mais autênticas de organização política. Contudo, tais ideias frequentemente desconsideram a complexidade do momento histórico e os riscos associados a essa abordagem.
Ao sublimar a legalidade em nome de experimentações voluntaristas, esses setores da esquerda demonstram um preocupante despreparo político. A fé na ruptura como solução imediata expõe uma visão idealista que negligencia o papel das instituições democráticas na proteção de direitos e liberdades. Por mais imperfeitos que sejam os ritos da democracia, eles representam um escudo contra o caos e a exploração desenfreada que emergem em cenários de “salve-se quem puder”.
Esse voluntarismo, além de ser irresponsável, revela uma desconexão com a realidade das forças em disputa. Em momentos de crise legal e de golpes brandos articulados pela direita, abandonar a legalidade é oferecer terreno fértil para que os mais fortes consolidem ainda mais seu poder. Historicamente, sabemos que nesses contextos, os oprimidos raramente saem vitoriosos.
A democracia, mesmo com suas limitações, oferece um espaço de luta onde as desigualdades estruturais podem ser combatidas com alguma previsibilidade e segurança. Renunciar a isso em prol de experimentos político-ideológicos é um risco que recai desproporcionalmente sobre aqueles que já carregam o peso das opressões econômicas e sociais.
A esquerda, para avançar de forma responsável, precisa reconhecer que a transformação não ocorre à margem das instituições, mas sim através de sua disputa, reforma e fortalecimento. Qualquer caminho que ignore essa premissa não é apenas ingênuo, mas perigoso. O voluntarismo pode parecer sedutor em sua promessa de ruptura, mas suas consequências frequentemente levam ao reforço das hierarquias que buscamos desmantelar.