Quando os riscos são ignorados em nome do experimentalismo, a sociedade paga o preço.
Mesmo diante de avisos claros sobre os perigos de determinadas escolhas, muitos brasileiros continuam a se lançar em erros que já foram previstos, como se a única maneira de aprender fosse vivenciar o fracasso. Esse comportamento se reflete em uma das defesas mais comuns entre eleitores que, ao questionados sobre as falhas no governo, respondem com uma frase que tem se tornado cada vez mais corriqueira: “vamos tentar e ver onde vai dar.” Esse tipo de raciocínio, além de preocupante, é nada mais do que imprudência — um vício antigo, que remonta à Grécia e à filosofia medieval.
São Tomás de Aquino, em sua análise moral, considerava a imprudência um dos quatro vícios cardinais, um dos maiores obstáculos à prática das virtudes. Para Aristóteles, o oposto da imprudência, a prudência (ou phronesis), é a chave para o bom governo, a base que guia a razão e as ações justas. A prudência, portanto, não é apenas uma virtude individual, mas uma qualidade essencial para a construção de uma sociedade justa. Sem ela, a própria justiça se torna cega e ineficaz, e as decisões de governantes e cidadãos podem levar a tragédias irreversíveis.
A imprudência, quando não refletida, não afeta apenas o indivíduo, mas toda a comunidade. Agir sem considerar as consequências, ignorando os alertas de especialistas e das pessoas capacitadas, pode resultar em danos que perduram muito além de uma falha pessoal. O filósofo grego Ésquilo, autor das primeiras tragédias, via as pessoas que tomavam decisões apressadas como as responsáveis pelas maiores desgraças humanas. Segundo ele, agir sem prudência, sem avaliar os riscos e consequências, é a fonte do mal que arrasta toda uma sociedade.
No contexto político atual, essa imprudência se reflete em um governo que, ignorando críticas bem fundamentadas, toma decisões sem considerar os riscos iminentes apontados por especialistas, especialmente no campo da saúde pública. Essa postura não pode ser vista como um simples erro de julgamento, mas como uma opção consciente por um caminho arriscado, em nome do experimentalismo e da busca por resultados imediatos. Esse tipo de aventurismo não é apenas um risco para o futuro do país, mas uma ameaça real e tangível à vida de seus cidadãos.
Portanto, apoiar decisões governamentais que ignoram os alertas da ciência e das pessoas competentes, em nome de um sentimento popular ou uma crença pessoal no sucesso de um experimento político, é eticamente inaceitável. Estamos lidando com um ciclo político que não é apenas desesperador, mas desastroso, onde a falta de prudência está conduzindo a nações inteiras para um abismo de incertezas e desamparo.